Fonte: Banco de imagens
Neste novo século
experimentamos sucessos e diversos fracassos.
Mudaram-se as condições sociais,
os espaços as relações, as identidades.
as racionalidades, as culturas...
E mudamos nós.
Hoje somos educados em tempos pós-modernos:
O do desafio e da educação que lhe corresponde.
Eu o chamo o tempo do desafio das diferenças
Das concepções e práticas dos diferentes
São pessoas:
que povoam casas e ruas,
Salas de aulas dias e noites
São homens negros, brancos, índios,
Pobres mulheres, loucos doentes, deficientes
Marginais, migrantes, criminosos,
Infantis e adultos, todos os “sem”...
São aqueles que:
Por tanto tempo ficaram barrados e excluídos,
Calados e subordinados,
Dominados e pisoteados
Pela lógica da identidade-diferença
Diferentes em si mesmos
Essencialmente outros,
não idênticos, outros ... diversos
Que lutam para que não sejam vistos
ou culpados.
Este é o tempo em que as concepções educacionais do poder,
da sensibilidade, da linguagem, da utopia,
não deixam de ter importância e,
inclusive de funcionar na sociedade e em nós.
Este é o diagnóstico:
Do que era e o que somos,
O que pensávamos e o que pensamos,
O que sentíamos, o que desejávamos
E o que desejamos agora.
Mas, o mais grave de tudo isso
É que não somos educados
para um futuro plural e criativo
cuja educação faça a diferença
para validar alternativas,
para remover barreiras,
sendo nós mesmos o instrumento
do encontro com o outro.
E,... Por amor à vida
Precisamos recolher em nossos braços
Os brutalmente feridos,
os sem voz, sem-teto, sem-comida,
sem-nada enfrentando a realidade com serenidade
Para buscar luz: nas ruas, nas praças,
nas estradas, nos caminhos
aonde queremos e desejamos chegar
prontos a resgatar o respeito às nossas diferenças
para as questões mais profundas da vida:
não entorpecer a sensibilidade;
não querer silenciar àqueles que criticam;
não insistir em justiça;
mas estar sempre disposto
A aprender a servir e confiar em si e no outro.
de Maria Gildete Carneiro Amorim
Fonte: http://www.pucrs.br/mj/poema-filosofia-50.php
“Na vida só há um modo de ser feliz. Viver para os outros.”
Léon Tolstoi
terça-feira, 31 de maio de 2011
Palavras de Paulo Freire
Fonte: Banco de Imagens
"A melhor maneira que a gente tem de fazer possível amanhã alguma coisa que não é possível de ser feita hoje, é fazer hoje aquilo que hoje pode ser feito. Mas se eu não fizer hoje o que hoje pode ser feito e tentar fazer hoje o que hoje não pode ser feito, dificilmente eu faço amanhã o que hoje também não pude fazer".
Paulo Freire
"A melhor maneira que a gente tem de fazer possível amanhã alguma coisa que não é possível de ser feita hoje, é fazer hoje aquilo que hoje pode ser feito. Mas se eu não fizer hoje o que hoje pode ser feito e tentar fazer hoje o que hoje não pode ser feito, dificilmente eu faço amanhã o que hoje também não pude fazer".
Paulo Freire
Paulo Freire e a interdisciplinaridade
João Zanetic*
Fonte: Banco de Imagens
“Uma das ilusões liberais é que a instrução, por si só, seja fator capaz de transformar a sociedade, quando sabemos que em países como o Brasil o problema só poderá ser solucionado pela conjugação entre educação e consciência política progressista".
Antonio Candido 1
Introdução
Alguns dias depois que recebi o convite do Marcelo Aguirre2 para escrever um pequeno artigo sobre nosso saudoso educador Paulo Freire (1921-1997) para esta publicação marcando o décimo aniversário de sua morte, uma notícia publicada em um jornal de São Paulo me forneceu a inspiração que eu procurava para a abertura do artigo. Essa notícia apresentava os resultados de uma pesquisa - realizada em parceria da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) - que apontava o bom desempenho de algumas poucas dezenas de escolas-modelo públicas de ensino fundamental do país. Segundo a notícia, os principais ingredientes responsáveis pelo destaque da boa qualidade dessas escolas incluíam: professores que incentivam atividades a serem realizadas em sala de aula e que têm formação continuada; estudantes interessados e esforçados nas tarefas escolares; propostas pedagógicas ligadas à realidade dos alunos; participação de universidades públicas na elaboração das propostas pedagógicas e o envolvimento dos pais e da comunidade no processo de aprendizado.3 Um editorial do mesmo jornal, ao comentar o conteúdo dessa pesquisa, conclui que, embora as propostas pedagógicas dessas escolas sejam relevantes, “as receitas das 33 instituições selecionadas pelo Unicef e pelo Mec não são universalizáveis”.4
Ao ler essa notícia e a avaliação do editorial, imediatamente veio-me à mente uma prazerosa lembrança de uma experiência educacional que, entre várias outras, também possuía os ingredientes acima citados e que tinha e tem tudo para ser universalizada nas escolas do país. Essa experiência educacional, que tive a satisfação e o orgulho de ter participado como um dos representantes da Universidade de São Paulo, ocorreu entre os anos de 1989 e 1992, na Administração Popular do Município de São Paulo na primeira gestão do Partido dos Trabalhadores (PT). Nesses anos teve lugar o Movimento de Reorientação Curricular, que foi comandado por Paulo Freire que, na maior parte desse período, desempenhou o cargo de Secretário Municipal de Educação. A experiência educacional nas escolas de ensino fundamental da rede municipal denominava-se “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador”.
Creio que é relevante e atual relembrar algo dessa experiência educacional principalmente neste momento da vida do país quando a péssima qualidade da educação dos jovens brasileiros tem ocupado as páginas de nossos jornais. Tanto durante a primeira gestão de Lula como presidente da República, quanto no início de sua segunda gestão, a política educacional dominante está distante do legado educacional de Paulo Freire.
Para situar melhor essa experiência exporei brevemente algumas concepções freireanas críticas à educação tradicional e suas propostas alternativas.
Educação bancária
Paulo Freire denominava o modelo tradicional de prática pedagógica de “educação bancária”, pois entendia que ela visava à mera transmissão passiva de conteúdos do professor, assumido como aquele que supostamente tudo sabe, para o aluno, que era assumido como aquele que nada sabe. Era como se o professor fosse preenchendo com seu saber a cabeça vazia de seus alunos; depositava conteúdos, como alguém deposita dinheiro num banco. O professor seria um mero narrador, nessa concepção de educação. Nessa narração a realidade apareceria como algo imutável, estático, compartimentado e bem comportado, como se fosse uma “coisa morta”. Se na alfabetização dominava o “b”, “a”, “ba”, no ensino fundamental e médio deveria dominar a repetição, a memorização, algo que nas aulas de física se resumiria no “x = xo + vot + 1/2at2” ou “a segunda lei de Newton diz que a força é igual à massa vezes aceleração”, entre outras tantas fórmulas e frases a serem memorizadas.
Tanto a concepção “bancária” da educação que Paulo Freire também denominava como a educação como prática de dominação, quanto sua negação, representada pela concepção problematizadora e emancipadora de educação, apareceram pela primeira vez no seu livro Pedagogia do oprimido, escrito durante seu exílio no Chile nos anos 1967-1969 e publicado inicialmente em Nova York, em setembro de 1970. Esse livro, devido à censura imposta pela ditadura militar, que em 1964 expulsara seu autor do Brasil, só teve sua primeira impressão brasileira em português em 1975, depois de terem sido publicadas edições em inglês, espanhol, italiano, francês, alemão, holandês e sueco! 5
“A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, essa pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação”.6
Embora sua preocupação original estivesse relacionada com a problemática envolvida na educação de adultos (alfabetização e cultura), sua análise sempre transcendeu essa educação e propiciou temas que nos ajudam a entender vários conceitos cruciais: a educação, o professor, o aluno, a escola, o conteúdo escolar com finalidades sociais, o respeito pela cultura popular, entre outros.
A palavra geradora na alfabetização de adultos
Em um livro7 publicado alguns anos antes do Pedagogia do oprimido, Paulo Freire delineava no trato do problema da alfabetização de adultos algumas concepções que marcariam a reformulação curricular por meio da interdisciplinaridade, no período de 1989 a 1992. Por conta disso, creio que é útil resgatar algumas dessas idéias. Sua prática educacional estava baseada nas experiências por ele acumuladas no campo da educação de adultos em áreas proletárias e sub-proletárias, urbanas e rurais do Brasil durante as décadas de 50 e 60 do século passado.
Desde o início fora afastada qualquer hipótese de uma alfabetização puramente mecânica. Como educar, como auxiliar o homem e a mulher analfabetos a decodificarem, entenderem e usarem os diversos sinais gráficos que os cercam no cotidiano, no trabalho, no lazer e na vida política? Como proporcionar-lhes os meios necessários para superar suas atitudes, mágicas ou ingênuas, diante da realidade? Paulo Freire apresentava sua resposta propondo: a) um método ativo, dialógico, crítico e criticista; b) uma modificação no conteúdo programático da educação levando em conta a realidade vivenciada pelo educando; c) o uso de técnicas como a da redução temática e da codificação.
De uma forma bem abreviada estas são as várias fases de elaboração do método:8
1. Levantamento do universo vocabular dos grupos com que se trabalha; são palavras ligadas às experiências existenciais, profissionais e políticas dos participantes dos diferentes grupos.
2. Escolha das palavras geradoras 9, selecionadas do universo vocabular pesquisado. Para essa seleção devem ser obedecidos os seguintes critérios: a) riqueza fonética; b) as palavras selecionadas devem responder às dificuldades fonéticas da língua; c) teor pragmático da palavra implicando numa maior pluralidade de envolvimento da mesma numa dada realidade social, cultural e política.
3. Criação de situações existenciais típicas do grupo com que se vai trabalhar.
4. Elaboração de fichas-roteiro, que auxiliem os coordenadores de debates no seu trabalho.
“A programação desses debates nos era oferecida pelos próprios grupos, através de entrevistas que mantínhamos com eles e de que resultava a enumeração de problemas que gostariam de debater. “Nacionalismo”, “Remessa de lucros para o estrangeiro”, “Evolução política do Brasil”, “Desenvolvimento”, “Analfabetismo”. “Voto do analfabeto”, “Democracia”, eram entre outros, temas que se repetiam, de grupo a grupo.”10
5. Feitura de fichas com a decomposição das famílias fonéticas correspondentes aos vocábulos geradores.
A execução prática era realizada com a projeção de situações com a palavra geradora, por exemplo, entre pedreiros, a palavra tijolo. A seguir esgota-se a análise (descodificação) da situação dada. Projeta-se a palavra geradora TIJOLO. Na seqüência trabalha-se a separação da palavra em sílabas: TI JO LO. E, finalmente, elabora-se a “ficha da descoberta”:
Solicita-se aos participantes do círculo de cultura que o grupo forme palavras utilizando a “ficha da descoberta”. Assim surgem, por arranjo das sílabas: tatu, luta, tijolo, lajota, tito, loja, lote, teta, tela, jato, tijela (tigela) e até frases como tu ja le (tu já lês). Surgem ainda palavras juntando sílabas e vogais: tio, leite, jeito, lua, etc.
Terminados esses exercícios orais o homem e a mulher passam a escrever.
“E isso se verificou em todas as experiências que passaram a ser feitas no País, e que se iam estender e aprofundar através do Programa Nacional de Alfabetização do Ministério de Educação e Cultura, que coordenávamos, extinto depois do Golpe Militar”.11
Essas palavras de Paulo Freire valem como registro da violência da ditadura militar instalada no país em 1964 e que interrompeu esse processo de alfabetização. Paulo Freire só retornaria ao Brasil em 1979, em função da aprovação da Lei de Anistia Política, conquistada por intensa campanha popular.
Projeto Interdisciplinar,
via Tema Gerador
A educação problematizadora de Paulo Freire rompe com a polarização entre professor e alunos, dominante na educação bancária, propondo em seu lugar o par educador-educandos. Nessa educação predomina o diálogo entre educador e educandos envolvidos num processo que deve propiciar a construção de um diálogo inteligente com o mundo, problematizando o conteúdo que os mediatiza. O costume de aceitar como neutro o conteúdo educacional, mesmo numa área do conhecimento como a física, tem que ser abandonado.
Como escreveria Demétrio Delizoicov, que desempenhou um papel importantíssimo quando atuava como assessor na reformulação curricular do “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador”, o próprio termo conteúdo deveria ser analisado criticamente.
“Critérios mínimos, objetivamente colocados, precisam ser explicitados para a seleção do conhecimento universal – que tem uma natureza ampla, dinâmica, não acabada – sob pena de se reduzirem apenas aos mesmos dos manuais didáticos e programas escolares já propostos, isto é, roupa nova sobre a mesma velha carcaça.
Não é apenas a forma de abordagem do “conteúdo”, mas o próprio “conteúdo” escolar que deve estar em questão na construção de uma educação progressista.” 12
A construção da educação libertadora tem que enfrentar o problema de selecionar o conteúdo que constituirá o conhecimento a ser processado na escola de modo democrático, competente, culturalmente significativo e comprometido com a transformação social e que, ao mesmo tempo, tenha por eixo os interesses e necessidades da maioria da população.
A realização dessa tarefa no “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador” guardava alguma semelhança com o que foi descrito acima sobre a escolha das palavras geradoras do processo de alfabetização. A seleção de elementos culturais representados pelas diferentes áreas do conhecimento passou por um processo de várias etapas para a construção curricular, com base na interdisciplinaridade, e por vários momentos pedagógicos para a construção da organização didática a ser trabalhada com os alunos nas unidades de ensino. Todo esse processo envolveu professores das diferentes áreas do conhecimento e a assessoria composta pelos docentes universitários, além dos alunos, demais trabalhadores em educação e representantes de pais de alunos.
Utilizando o material da proposta do grupo de ciências naturais do “Projeto”, vou apresentar resumidamente como ocorreram essas etapas e momentos. Primeira etapa: levantamento preliminar de informações sobre as condições da localidade em que se encontrava a escola. Segunda etapa: esse levantamento possibilitava a análise e escolha de situações contraditórias, que eram codificadas (desenhos, fotografias ou depoimentos orais) para serem utilizadas na etapa seguinte. Terceira etapa: constituía-se um “círculo de investigação temática” – envolvendo professores, alunos, assessores e conselhos de escola - que iniciava um processo de descodificação das situações escolhidas para discussão; era um momento de problematização quando eram identificados os “temas geradores”; essa etapa desempenhava o importante papel de formação continuada de professores em serviço. Quarta etapa: era realizado um estudo interdisciplinar e sistemático de todo o material coletado visando à redução temática para a construção do programa. Quinta etapa: produção e discussão do material didático (textos específicos temáticos de cada área, diretrizes, abordagens epistemológicas, entre outros), ao longo do ano letivo, com a equipe de professores e assessores universitários; dessa forma, o professor deixava de ser um mero reprodutor de currículos tradicionais.
A organização didática nas salas de aula era realizada sistematicamente por meio de três momentos pedagógicos:
1. Estudo da Realidade: discussão crítica de uma situação da realidade, visando a sua compreensão, a partir da visão que o aluno tem sobre ela.
2. Organização do Conhecimento: estudo do conhecimento universal das diferentes áreas do conhecimento buscando conteúdos específicos e cotejando as visões distintas; nesse momento fica explicitado o conflito entre essas visões de mundo na construção do conhecimento científico; é o momento da ruptura com um obstáculo epistemológico.
3. Aplicação do Conhecimento: neste momento, o conteúdo apreendido é utilizado para reinterpretar a situação apresentada no primeiro momento; esse conhecimento é também extrapolado para outras situações; nesse momento busca-se a síntese dos momentos anteriores.
Eis uma lista de alguns temas geradores que surgiram em escolas no Núcleo de Ação Educativa 6 (NAE 6): falta de lazer; violência na convivência; córrego/lixo; falta de segurança; utilização do tempo livre; escola e televisão; dificuldades no relacionamento humano; falta de organização social; desemprego; falta de saneamento básico; enchente/lixo; ser humano: uma ameaça ao planeta; baixo salário; escola para quê?; relações locais conformistas e precariedade do trabalho.
A definição do tema gerador que iria ser utilizado por determinada escola não era uma tarefa fácil e rápida. Ao contrário, exigia uma discussão e aprofundamento de potenciais temas geradores que muitas vezes chegava a ser dramático. Muitas vezes era difícil para professores e alunos aceitarem que sua escola e seu bairro fossem problemáticos a tal ponto que gerassem temas para serem debatidos no currículo escolar.
Deve-se destacar que a implementação da mudança curricular, ao final de 1992, término da gestão da Administração Popular do Município de São Paulo, ainda estava em processo de consolidação quando foi interrompida pela gestão que tomou posse em 1993.
Creio que vale acrescentar aqui uma citação um pouco mais longa de Paulo Freire e que é um desabafo crítico presente em um de seus últimos livros:
“Ao contrário do que pensam os irresponsáveis, a linguagem de quem se insere na realidade contraditória, movido pelo sonho de fazê-la menos perversa, é a da possibilidade. [...] É a fala de quem, certo do rigor ético de sua luta e de seu sonho contra a perversidade de uma sociedade desigual como a nossa, faz tudo o que pode para mobilizar e organizar as classes populares e outros segmentos sociais para que democraticamente se instaure um governo mais justo. [...] Na verdade, se tudo fizermos para democratizar a escola do ponto de vista da quantidade e de sua qualidade, estaremos certos em nossa opção progressista, não importa se venceremos ou não a próxima eleição. O fato de não termos obtido aprovação à nossa proposta no trato geral da coisa pública, da saúde, da educação e da cultura não invalida o sonho democrático. Não posso elitizar minha compreensão do mundo só porque fui derrotado numa eleição democrática; preciso, sim, continuar a luta pelo aperfeiçoamento e democratização das instituições da sociedade. Também não posso simplesmente responsabilizar o povo culpando-o por não saber votar ou acusá-lo de ingrato. Devo identificar a presença da ideologia e a inexperiência democrática enraizada em nossas tradições.” 13
Vale também mencionar que o educador Antonio Fernando Gouvêa da Silva, que também participou dessa proposta de Paulo Freire em São Paulo como coordenador do NAE 6, nos últimos anos tem assessorado movimentos de reorientação curricular utilizando o “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador” como referência básica. E isso ele fez ou está fazendo em várias cidades como Angra dos Reis (RJ), Belém do Pará (PA), Caxias do Sul (RS), Chapecó (SC), Crisciúma (SC), Dourados (MS), Esteio (RS), Goiânia (GO), Gravataí (RS), Maceió (AL), Porto Alegre (RS) e Vitória da Conquista (BA).14
A prática da educação emancipadora comandada por Paulo Freire em São Paulo entre 1989-1992 e multiplicada nas várias experiências acima mencionadas permite concluir que ela é uma proposta universalizável no Brasil. Basta vontade política e luta popular que a sustente.
Essa proposta de Paulo Freire também me parece adequada ao desafio proposto pelo filósofo István Mésszáros em livro recentemente publicado, quando ele diz que é preciso “romper com a lógica do capital na área da educação” substituindo as formas dominantes de educação que se restringem a “fornecer os conhecimentos” e um “quadro de valores” que servem à máquina produtiva e quase nada mais.15
A educação não pode ser simplesmente reprodutora da ideologia dominante. É verdade que o educador e a educadora críticos não podem sozinhos transformar o país para além do capital mas, como acreditava Paulo Freire, eles podem demonstrar que é possível mudar. E isto reforça nele ou nela a importância de sua tarefa político-pedagógica.16
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* Professor do Instituto de Física da USP.
1. CANDIDO, Antonio. “Apresentação”, em VALENTE, Ivan e ARELARO, Lisete. Educação e políticas públicas. São Paulo: Xamã, 2002, pág. 7.
2. Marcelo Aguirre é assessor do mandato do Deputado Federal Ivan Valente (PSOL/SP).
3.CONSTANTINO, Luciana. Ensino público tem 33 escolas modelo. Folha de São Paulo, 20/12/2006, pág. C4.
4.Editorial. Folha de São Paulo, 24/12/2006, pág. A2.
5.Eu mesmo li pela primeira vez o livro mais famoso de Paulo Freire, em 1973, na versão inglesa Pedagogy of the oppressed, publicada na coleção Penguin Education Titles.
6.FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 2ª edição, 1975, pág. 44.
7.FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 4ª edição, 1974. Paulo Freire concluiu a escrita desse livro no exílio em Santiago, capital do Chile, na primavera de 1965.
8.Ibid., págs. 112-118.
9.“Palavras geradoras são aquelas que, decompostas em seus elementos silábicos, propiciam, pela combinação desses elementos, a criação de novas palavras.” Ibid, nota de rodapé da pág. 112.
10.Ibid., pág. 103.
11.Ibid., pág. 119.
12.DELIZOICOV, Demétrio. Conhecimento, tensões e transições. Tese de Doutorado, FEUSP, São Paulo,1991, g.131.
13.FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. São Paulo: Editora Olho d’Água, 1995, págs. 44-45.
14.SILVA, Antonio Fernando Gouvêa da. A construção do currículo na perspectiva popular crítica: das falas significativas às práticas contextualizadas. Tese de Doutorado, PUC/SP, São Paulo, 2004.
15.MÉSSZÁROS, István. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005, pág. 47.
16.FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática pedagógica. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997, págs. 126-127.
Fonte: http://www.ivanvalente.com.br/CANAIS/especiais/paulofreire/artigos/Joao_Zanetic.htm
Fonte: Banco de Imagens
“Uma das ilusões liberais é que a instrução, por si só, seja fator capaz de transformar a sociedade, quando sabemos que em países como o Brasil o problema só poderá ser solucionado pela conjugação entre educação e consciência política progressista".
Antonio Candido 1
Introdução
Alguns dias depois que recebi o convite do Marcelo Aguirre2 para escrever um pequeno artigo sobre nosso saudoso educador Paulo Freire (1921-1997) para esta publicação marcando o décimo aniversário de sua morte, uma notícia publicada em um jornal de São Paulo me forneceu a inspiração que eu procurava para a abertura do artigo. Essa notícia apresentava os resultados de uma pesquisa - realizada em parceria da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) - que apontava o bom desempenho de algumas poucas dezenas de escolas-modelo públicas de ensino fundamental do país. Segundo a notícia, os principais ingredientes responsáveis pelo destaque da boa qualidade dessas escolas incluíam: professores que incentivam atividades a serem realizadas em sala de aula e que têm formação continuada; estudantes interessados e esforçados nas tarefas escolares; propostas pedagógicas ligadas à realidade dos alunos; participação de universidades públicas na elaboração das propostas pedagógicas e o envolvimento dos pais e da comunidade no processo de aprendizado.3 Um editorial do mesmo jornal, ao comentar o conteúdo dessa pesquisa, conclui que, embora as propostas pedagógicas dessas escolas sejam relevantes, “as receitas das 33 instituições selecionadas pelo Unicef e pelo Mec não são universalizáveis”.4
Ao ler essa notícia e a avaliação do editorial, imediatamente veio-me à mente uma prazerosa lembrança de uma experiência educacional que, entre várias outras, também possuía os ingredientes acima citados e que tinha e tem tudo para ser universalizada nas escolas do país. Essa experiência educacional, que tive a satisfação e o orgulho de ter participado como um dos representantes da Universidade de São Paulo, ocorreu entre os anos de 1989 e 1992, na Administração Popular do Município de São Paulo na primeira gestão do Partido dos Trabalhadores (PT). Nesses anos teve lugar o Movimento de Reorientação Curricular, que foi comandado por Paulo Freire que, na maior parte desse período, desempenhou o cargo de Secretário Municipal de Educação. A experiência educacional nas escolas de ensino fundamental da rede municipal denominava-se “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador”.
Creio que é relevante e atual relembrar algo dessa experiência educacional principalmente neste momento da vida do país quando a péssima qualidade da educação dos jovens brasileiros tem ocupado as páginas de nossos jornais. Tanto durante a primeira gestão de Lula como presidente da República, quanto no início de sua segunda gestão, a política educacional dominante está distante do legado educacional de Paulo Freire.
Para situar melhor essa experiência exporei brevemente algumas concepções freireanas críticas à educação tradicional e suas propostas alternativas.
Educação bancária
Paulo Freire denominava o modelo tradicional de prática pedagógica de “educação bancária”, pois entendia que ela visava à mera transmissão passiva de conteúdos do professor, assumido como aquele que supostamente tudo sabe, para o aluno, que era assumido como aquele que nada sabe. Era como se o professor fosse preenchendo com seu saber a cabeça vazia de seus alunos; depositava conteúdos, como alguém deposita dinheiro num banco. O professor seria um mero narrador, nessa concepção de educação. Nessa narração a realidade apareceria como algo imutável, estático, compartimentado e bem comportado, como se fosse uma “coisa morta”. Se na alfabetização dominava o “b”, “a”, “ba”, no ensino fundamental e médio deveria dominar a repetição, a memorização, algo que nas aulas de física se resumiria no “x = xo + vot + 1/2at2” ou “a segunda lei de Newton diz que a força é igual à massa vezes aceleração”, entre outras tantas fórmulas e frases a serem memorizadas.
Tanto a concepção “bancária” da educação que Paulo Freire também denominava como a educação como prática de dominação, quanto sua negação, representada pela concepção problematizadora e emancipadora de educação, apareceram pela primeira vez no seu livro Pedagogia do oprimido, escrito durante seu exílio no Chile nos anos 1967-1969 e publicado inicialmente em Nova York, em setembro de 1970. Esse livro, devido à censura imposta pela ditadura militar, que em 1964 expulsara seu autor do Brasil, só teve sua primeira impressão brasileira em português em 1975, depois de terem sido publicadas edições em inglês, espanhol, italiano, francês, alemão, holandês e sueco! 5
“A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, essa pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação”.6
Embora sua preocupação original estivesse relacionada com a problemática envolvida na educação de adultos (alfabetização e cultura), sua análise sempre transcendeu essa educação e propiciou temas que nos ajudam a entender vários conceitos cruciais: a educação, o professor, o aluno, a escola, o conteúdo escolar com finalidades sociais, o respeito pela cultura popular, entre outros.
A palavra geradora na alfabetização de adultos
Em um livro7 publicado alguns anos antes do Pedagogia do oprimido, Paulo Freire delineava no trato do problema da alfabetização de adultos algumas concepções que marcariam a reformulação curricular por meio da interdisciplinaridade, no período de 1989 a 1992. Por conta disso, creio que é útil resgatar algumas dessas idéias. Sua prática educacional estava baseada nas experiências por ele acumuladas no campo da educação de adultos em áreas proletárias e sub-proletárias, urbanas e rurais do Brasil durante as décadas de 50 e 60 do século passado.
Desde o início fora afastada qualquer hipótese de uma alfabetização puramente mecânica. Como educar, como auxiliar o homem e a mulher analfabetos a decodificarem, entenderem e usarem os diversos sinais gráficos que os cercam no cotidiano, no trabalho, no lazer e na vida política? Como proporcionar-lhes os meios necessários para superar suas atitudes, mágicas ou ingênuas, diante da realidade? Paulo Freire apresentava sua resposta propondo: a) um método ativo, dialógico, crítico e criticista; b) uma modificação no conteúdo programático da educação levando em conta a realidade vivenciada pelo educando; c) o uso de técnicas como a da redução temática e da codificação.
De uma forma bem abreviada estas são as várias fases de elaboração do método:8
1. Levantamento do universo vocabular dos grupos com que se trabalha; são palavras ligadas às experiências existenciais, profissionais e políticas dos participantes dos diferentes grupos.
2. Escolha das palavras geradoras 9, selecionadas do universo vocabular pesquisado. Para essa seleção devem ser obedecidos os seguintes critérios: a) riqueza fonética; b) as palavras selecionadas devem responder às dificuldades fonéticas da língua; c) teor pragmático da palavra implicando numa maior pluralidade de envolvimento da mesma numa dada realidade social, cultural e política.
3. Criação de situações existenciais típicas do grupo com que se vai trabalhar.
4. Elaboração de fichas-roteiro, que auxiliem os coordenadores de debates no seu trabalho.
“A programação desses debates nos era oferecida pelos próprios grupos, através de entrevistas que mantínhamos com eles e de que resultava a enumeração de problemas que gostariam de debater. “Nacionalismo”, “Remessa de lucros para o estrangeiro”, “Evolução política do Brasil”, “Desenvolvimento”, “Analfabetismo”. “Voto do analfabeto”, “Democracia”, eram entre outros, temas que se repetiam, de grupo a grupo.”10
5. Feitura de fichas com a decomposição das famílias fonéticas correspondentes aos vocábulos geradores.
A execução prática era realizada com a projeção de situações com a palavra geradora, por exemplo, entre pedreiros, a palavra tijolo. A seguir esgota-se a análise (descodificação) da situação dada. Projeta-se a palavra geradora TIJOLO. Na seqüência trabalha-se a separação da palavra em sílabas: TI JO LO. E, finalmente, elabora-se a “ficha da descoberta”:
Solicita-se aos participantes do círculo de cultura que o grupo forme palavras utilizando a “ficha da descoberta”. Assim surgem, por arranjo das sílabas: tatu, luta, tijolo, lajota, tito, loja, lote, teta, tela, jato, tijela (tigela) e até frases como tu ja le (tu já lês). Surgem ainda palavras juntando sílabas e vogais: tio, leite, jeito, lua, etc.
Terminados esses exercícios orais o homem e a mulher passam a escrever.
“E isso se verificou em todas as experiências que passaram a ser feitas no País, e que se iam estender e aprofundar através do Programa Nacional de Alfabetização do Ministério de Educação e Cultura, que coordenávamos, extinto depois do Golpe Militar”.11
Essas palavras de Paulo Freire valem como registro da violência da ditadura militar instalada no país em 1964 e que interrompeu esse processo de alfabetização. Paulo Freire só retornaria ao Brasil em 1979, em função da aprovação da Lei de Anistia Política, conquistada por intensa campanha popular.
Projeto Interdisciplinar,
via Tema Gerador
A educação problematizadora de Paulo Freire rompe com a polarização entre professor e alunos, dominante na educação bancária, propondo em seu lugar o par educador-educandos. Nessa educação predomina o diálogo entre educador e educandos envolvidos num processo que deve propiciar a construção de um diálogo inteligente com o mundo, problematizando o conteúdo que os mediatiza. O costume de aceitar como neutro o conteúdo educacional, mesmo numa área do conhecimento como a física, tem que ser abandonado.
Como escreveria Demétrio Delizoicov, que desempenhou um papel importantíssimo quando atuava como assessor na reformulação curricular do “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador”, o próprio termo conteúdo deveria ser analisado criticamente.
“Critérios mínimos, objetivamente colocados, precisam ser explicitados para a seleção do conhecimento universal – que tem uma natureza ampla, dinâmica, não acabada – sob pena de se reduzirem apenas aos mesmos dos manuais didáticos e programas escolares já propostos, isto é, roupa nova sobre a mesma velha carcaça.
Não é apenas a forma de abordagem do “conteúdo”, mas o próprio “conteúdo” escolar que deve estar em questão na construção de uma educação progressista.” 12
A construção da educação libertadora tem que enfrentar o problema de selecionar o conteúdo que constituirá o conhecimento a ser processado na escola de modo democrático, competente, culturalmente significativo e comprometido com a transformação social e que, ao mesmo tempo, tenha por eixo os interesses e necessidades da maioria da população.
A realização dessa tarefa no “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador” guardava alguma semelhança com o que foi descrito acima sobre a escolha das palavras geradoras do processo de alfabetização. A seleção de elementos culturais representados pelas diferentes áreas do conhecimento passou por um processo de várias etapas para a construção curricular, com base na interdisciplinaridade, e por vários momentos pedagógicos para a construção da organização didática a ser trabalhada com os alunos nas unidades de ensino. Todo esse processo envolveu professores das diferentes áreas do conhecimento e a assessoria composta pelos docentes universitários, além dos alunos, demais trabalhadores em educação e representantes de pais de alunos.
Utilizando o material da proposta do grupo de ciências naturais do “Projeto”, vou apresentar resumidamente como ocorreram essas etapas e momentos. Primeira etapa: levantamento preliminar de informações sobre as condições da localidade em que se encontrava a escola. Segunda etapa: esse levantamento possibilitava a análise e escolha de situações contraditórias, que eram codificadas (desenhos, fotografias ou depoimentos orais) para serem utilizadas na etapa seguinte. Terceira etapa: constituía-se um “círculo de investigação temática” – envolvendo professores, alunos, assessores e conselhos de escola - que iniciava um processo de descodificação das situações escolhidas para discussão; era um momento de problematização quando eram identificados os “temas geradores”; essa etapa desempenhava o importante papel de formação continuada de professores em serviço. Quarta etapa: era realizado um estudo interdisciplinar e sistemático de todo o material coletado visando à redução temática para a construção do programa. Quinta etapa: produção e discussão do material didático (textos específicos temáticos de cada área, diretrizes, abordagens epistemológicas, entre outros), ao longo do ano letivo, com a equipe de professores e assessores universitários; dessa forma, o professor deixava de ser um mero reprodutor de currículos tradicionais.
A organização didática nas salas de aula era realizada sistematicamente por meio de três momentos pedagógicos:
1. Estudo da Realidade: discussão crítica de uma situação da realidade, visando a sua compreensão, a partir da visão que o aluno tem sobre ela.
2. Organização do Conhecimento: estudo do conhecimento universal das diferentes áreas do conhecimento buscando conteúdos específicos e cotejando as visões distintas; nesse momento fica explicitado o conflito entre essas visões de mundo na construção do conhecimento científico; é o momento da ruptura com um obstáculo epistemológico.
3. Aplicação do Conhecimento: neste momento, o conteúdo apreendido é utilizado para reinterpretar a situação apresentada no primeiro momento; esse conhecimento é também extrapolado para outras situações; nesse momento busca-se a síntese dos momentos anteriores.
Eis uma lista de alguns temas geradores que surgiram em escolas no Núcleo de Ação Educativa 6 (NAE 6): falta de lazer; violência na convivência; córrego/lixo; falta de segurança; utilização do tempo livre; escola e televisão; dificuldades no relacionamento humano; falta de organização social; desemprego; falta de saneamento básico; enchente/lixo; ser humano: uma ameaça ao planeta; baixo salário; escola para quê?; relações locais conformistas e precariedade do trabalho.
A definição do tema gerador que iria ser utilizado por determinada escola não era uma tarefa fácil e rápida. Ao contrário, exigia uma discussão e aprofundamento de potenciais temas geradores que muitas vezes chegava a ser dramático. Muitas vezes era difícil para professores e alunos aceitarem que sua escola e seu bairro fossem problemáticos a tal ponto que gerassem temas para serem debatidos no currículo escolar.
Deve-se destacar que a implementação da mudança curricular, ao final de 1992, término da gestão da Administração Popular do Município de São Paulo, ainda estava em processo de consolidação quando foi interrompida pela gestão que tomou posse em 1993.
Creio que vale acrescentar aqui uma citação um pouco mais longa de Paulo Freire e que é um desabafo crítico presente em um de seus últimos livros:
“Ao contrário do que pensam os irresponsáveis, a linguagem de quem se insere na realidade contraditória, movido pelo sonho de fazê-la menos perversa, é a da possibilidade. [...] É a fala de quem, certo do rigor ético de sua luta e de seu sonho contra a perversidade de uma sociedade desigual como a nossa, faz tudo o que pode para mobilizar e organizar as classes populares e outros segmentos sociais para que democraticamente se instaure um governo mais justo. [...] Na verdade, se tudo fizermos para democratizar a escola do ponto de vista da quantidade e de sua qualidade, estaremos certos em nossa opção progressista, não importa se venceremos ou não a próxima eleição. O fato de não termos obtido aprovação à nossa proposta no trato geral da coisa pública, da saúde, da educação e da cultura não invalida o sonho democrático. Não posso elitizar minha compreensão do mundo só porque fui derrotado numa eleição democrática; preciso, sim, continuar a luta pelo aperfeiçoamento e democratização das instituições da sociedade. Também não posso simplesmente responsabilizar o povo culpando-o por não saber votar ou acusá-lo de ingrato. Devo identificar a presença da ideologia e a inexperiência democrática enraizada em nossas tradições.” 13
Vale também mencionar que o educador Antonio Fernando Gouvêa da Silva, que também participou dessa proposta de Paulo Freire em São Paulo como coordenador do NAE 6, nos últimos anos tem assessorado movimentos de reorientação curricular utilizando o “Projeto Interdisciplinar, via Tema Gerador” como referência básica. E isso ele fez ou está fazendo em várias cidades como Angra dos Reis (RJ), Belém do Pará (PA), Caxias do Sul (RS), Chapecó (SC), Crisciúma (SC), Dourados (MS), Esteio (RS), Goiânia (GO), Gravataí (RS), Maceió (AL), Porto Alegre (RS) e Vitória da Conquista (BA).14
A prática da educação emancipadora comandada por Paulo Freire em São Paulo entre 1989-1992 e multiplicada nas várias experiências acima mencionadas permite concluir que ela é uma proposta universalizável no Brasil. Basta vontade política e luta popular que a sustente.
Essa proposta de Paulo Freire também me parece adequada ao desafio proposto pelo filósofo István Mésszáros em livro recentemente publicado, quando ele diz que é preciso “romper com a lógica do capital na área da educação” substituindo as formas dominantes de educação que se restringem a “fornecer os conhecimentos” e um “quadro de valores” que servem à máquina produtiva e quase nada mais.15
A educação não pode ser simplesmente reprodutora da ideologia dominante. É verdade que o educador e a educadora críticos não podem sozinhos transformar o país para além do capital mas, como acreditava Paulo Freire, eles podem demonstrar que é possível mudar. E isto reforça nele ou nela a importância de sua tarefa político-pedagógica.16
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* Professor do Instituto de Física da USP.
1. CANDIDO, Antonio. “Apresentação”, em VALENTE, Ivan e ARELARO, Lisete. Educação e políticas públicas. São Paulo: Xamã, 2002, pág. 7.
2. Marcelo Aguirre é assessor do mandato do Deputado Federal Ivan Valente (PSOL/SP).
3.CONSTANTINO, Luciana. Ensino público tem 33 escolas modelo. Folha de São Paulo, 20/12/2006, pág. C4.
4.Editorial. Folha de São Paulo, 24/12/2006, pág. A2.
5.Eu mesmo li pela primeira vez o livro mais famoso de Paulo Freire, em 1973, na versão inglesa Pedagogy of the oppressed, publicada na coleção Penguin Education Titles.
6.FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 2ª edição, 1975, pág. 44.
7.FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 4ª edição, 1974. Paulo Freire concluiu a escrita desse livro no exílio em Santiago, capital do Chile, na primavera de 1965.
8.Ibid., págs. 112-118.
9.“Palavras geradoras são aquelas que, decompostas em seus elementos silábicos, propiciam, pela combinação desses elementos, a criação de novas palavras.” Ibid, nota de rodapé da pág. 112.
10.Ibid., pág. 103.
11.Ibid., pág. 119.
12.DELIZOICOV, Demétrio. Conhecimento, tensões e transições. Tese de Doutorado, FEUSP, São Paulo,1991, g.131.
13.FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. São Paulo: Editora Olho d’Água, 1995, págs. 44-45.
14.SILVA, Antonio Fernando Gouvêa da. A construção do currículo na perspectiva popular crítica: das falas significativas às práticas contextualizadas. Tese de Doutorado, PUC/SP, São Paulo, 2004.
15.MÉSSZÁROS, István. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005, pág. 47.
16.FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática pedagógica. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997, págs. 126-127.
Fonte: http://www.ivanvalente.com.br/CANAIS/especiais/paulofreire/artigos/Joao_Zanetic.htm
domingo, 29 de maio de 2011
Alunos com altas habilidades/superdotação no contexto da Educação Inclusiva
Bárbara Martins de Lima Delpretto
Sinara Pollom Zardo
Fonte: Banco de Imagens
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) supera a fragmentação do ensino para os alunos da educação especial e define esta modalidade como transversal aos níveis, etapas e outras modalidades de ensino. A educação inclusiva defende o direito de todos os alunos à escolarização, questiona as práticas pedagógicas homogêneas, investindo em uma pedagogia que reconhece as diferenças.
Essa proposta político-educacional concebe como público da educação especial alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. A estes alunos devem ser disponibilizados recursos e serviços orientados para a promoção da sua participação e aprendizagem escolar e ofertado o atendimento educacional especializado, de forma complementar ou suplementar ao ensino regular.
Discorrer acerca da inclusão de alunos com altas habilidades/superdotação na escolarização comum requer aprofundar a discussão das práticas educacionais no âmbito da sala de aula comum e do atendimento educacional especializado.
É a partir da articulação entre educação comum e educação especial que são promovidas as condições necessárias para que os alunos com altas habilidades/superdotação aprendam, participem, desenvolvam e potencializem suas habilidades, prosseguindo seus estudos nas áreas de interesse.
Os alunos com altas habilidades/superdotação são aqueles que demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes; também apresentam elevada criatividade, grande envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (MEC, 2008).
Historicamente, os alunos com altas habilidades/superdotação não encontraram obstáculos no acesso à escola comum - ingresso e matrícula. No entanto, muitos deles passavam despercebidos na escola comum. Parte do motivo que os levou a tal invisibilidade diz respeito à utilização de testes para aferição do quociente intelectual, orientados por uma concepção restrita de inteligência e altas habilidades/superdotação, e que não contemplavam as diferentes aptidões e formas de expressão da criatividade destes alunos. A elaboração destes instrumentos, a partir de uma concepção centrada no desempenho acadêmico, lingüístico e lógico-matemático, desconsiderava no processo de avaliação as habilidades diversas, a exemplo daquelas relacionadas às soluções de problemas do cotidiano.
A interpretação destes resultados dos testes apontava para uma capacidade cognitiva superior ou inferior do sujeito, definindo o tipo de intervenção a ser realizada fora da escola ou da sala de aula comum e, no geral, dissociadas do projeto escolar. A concepção das altas habilidades/superdotação preservava, desta forma, o mito de que estas pessoas possuíam valores "superiores" e saberes inquestionáveis.
No campo educacional, esse mito contribuiu para fortalecer a concepção equivocada de que as altas habilidades/superdotação poderiam ser manifestadas em diferentes áreas do conhecimento, mesmo sem oportunidades escolares adequadas; o mito era explicado por um desenvolvimento individualizado e de ordem predominantemente biológica. O imaginário social reforçava a proposição de que alunos com tais habilidades e necessidades não precisavam de recursos e serviços específicos para o desenvolvimento de suas potencialidades.
A concepção atual sobre os processos de identificação de alunos com altas habilidades/superdotação rompe com esse paradigma tradicional, que enfatizava somente a hereditariedade da inteligência e considerava o desenvolvimento de habilidades e comportamentos a partir de uma visão estanque e linear. Ela investe em estratégias que envolvem a observação, o contexto e as experiências desses alunos na escola e fora dela para o reconhecimento de potencialidades.
Na perspectiva multidimensional, as discussões sobre inteligência e as altas habilidades/superdotação passaram a incorporar pesquisas e análises sobre uma aprendizagem contextualizada e dependente de oportunidades e atividades para o desenvolvimento de habilidades. Sendo as habilidades acima da média manifestadas em diferentes áreas do conhecimento, a concepção de altas habilidades/superdotação coaduna-se a noção de rendimento e de excelência vislumbrada processualmente; de tal modo um ambiente enriquecedor, estimulante, é essencial para a identificação e para a proposição de ações para sujeitos que possuem tal necessidade específica de aprendizagem.
Por identificação entende-se o conjunto de instrumentos pedagógicos que podem ser utilizados para o reconhecimento de diferentes habilidades dos alunos em diversas áreas do conhecimento, considerando as especificidades das altas habilidades/superdotação. Essa prática de identificação traz o contexto da escola como foco de análise e a observação do professor possibilitando: conhecer diferentes estratégias que alguns alunos usam na resolução de problemas; revelar seus interesses e motivações; e avaliar conhecimentos e estilos de aprendizagem, subsidiando o trabalho educacional.
Nesse sentido, o objetivo da identificação não é "rotular" os alunos com altas habilidades/superdotação, mas verificar elementos individuais de aprendizagem para a elaboração de atividades e provisão de recursos específicos para estes. Não se busca um rendimento ou uma produção padrão que homogeneízam os alunos, mas consideram-se as diferenciações quanto aos interesses e habilidades e níveis de comprometimento com a tarefa, ou seja, as habilidades apresentadas são demonstradas em determinada ou em determinadas área(s) e ocasionalmente vislumbradas em períodos e situações distintas.
Na conjuntura educacional presente, as discussões sobre as altas habilidades/superdotação incorporam pesquisas e análises sobre uma aprendizagem contextualizada e vinculada a oportunidades e atividades de estímulo. Assim, as altas habilidades/superdotação não constituem apenas um atributo do indivíduo, mas são resultantes da interação do indivíduo com seu ambiente (ALENCAR & FLEITH, 2001).
Na medida em que habilidades geram necessidades que são desencadeadas por um contexto de estímulo e de aprendizado, a intervenção pedagógica específica para o atendimento aos alunos com altas habilidades/superdotação deve oportunizar a manifestação da criatividade e originalidade do aluno; técnicas que cooperam com a elaboração de trabalhos na(s) área(s) de interesse; e atividades usadas para transformar os ambientes tornando-os mais adequados ao aprendizado.
Estas intervenções são prerrogativas de uma educação de qualidade a todos os alunos, na qual a ênfase das oportunidades escolares colabora para o processo de construção do conhecimento e para a valorização das diversas formas do pensar. Tais práticas pedagógicas devem considerar e estimular o processo de desenvolvimento das estruturas cognitivas e possibilitar recursos compatíveis com a finalidade educacional de ampliar as condições de aprendizagem aos alunos com altas habilidades/superdotação.
A partir dos pressupostos teóricos de Piaget (1956), o conhecimento é fruto de um processo de interação do indivíduo com o meio e a inteligência é a resposta orgânica do indivíduo às solicitações e desafios desse meio. Os conceitos piagetianos contribuem para o entendimento de que quanto mais provocadoras e desequilibradoras forem às estratégias de ensino propostas em sala de aula, tanto maior serão as oportunidades e as possibilidades de construção do conhecimento pelos alunos.
A proposta educacional, derivada desses pressupostos favorece os alunos com altas habilidades/superdotação na superação de possíveis dificuldades na construção do conhecimento de forma individual e coletiva, no reconhecimento de características de aprendizagem distintas e individuais, reconhecendo a importância da interação e da participação de todos os alunos nos espaços comuns de aprendizagem. A aprendizagem colaborativa contribui para a autonomia cognitiva dos alunos com altas habilidades/superdotação, desafiando-os a não somente compartilhar conhecimentos na sala de aula, mas beneficiar-se dos processos de aprendizagem coletivos.
Fonte: http://arivieiracet.blogspot.com/2011/05/texto-alunos-com-altas.html
Sinara Pollom Zardo
Fonte: Banco de Imagens
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) supera a fragmentação do ensino para os alunos da educação especial e define esta modalidade como transversal aos níveis, etapas e outras modalidades de ensino. A educação inclusiva defende o direito de todos os alunos à escolarização, questiona as práticas pedagógicas homogêneas, investindo em uma pedagogia que reconhece as diferenças.
Essa proposta político-educacional concebe como público da educação especial alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. A estes alunos devem ser disponibilizados recursos e serviços orientados para a promoção da sua participação e aprendizagem escolar e ofertado o atendimento educacional especializado, de forma complementar ou suplementar ao ensino regular.
Discorrer acerca da inclusão de alunos com altas habilidades/superdotação na escolarização comum requer aprofundar a discussão das práticas educacionais no âmbito da sala de aula comum e do atendimento educacional especializado.
É a partir da articulação entre educação comum e educação especial que são promovidas as condições necessárias para que os alunos com altas habilidades/superdotação aprendam, participem, desenvolvam e potencializem suas habilidades, prosseguindo seus estudos nas áreas de interesse.
Os alunos com altas habilidades/superdotação são aqueles que demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes; também apresentam elevada criatividade, grande envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (MEC, 2008).
Historicamente, os alunos com altas habilidades/superdotação não encontraram obstáculos no acesso à escola comum - ingresso e matrícula. No entanto, muitos deles passavam despercebidos na escola comum. Parte do motivo que os levou a tal invisibilidade diz respeito à utilização de testes para aferição do quociente intelectual, orientados por uma concepção restrita de inteligência e altas habilidades/superdotação, e que não contemplavam as diferentes aptidões e formas de expressão da criatividade destes alunos. A elaboração destes instrumentos, a partir de uma concepção centrada no desempenho acadêmico, lingüístico e lógico-matemático, desconsiderava no processo de avaliação as habilidades diversas, a exemplo daquelas relacionadas às soluções de problemas do cotidiano.
A interpretação destes resultados dos testes apontava para uma capacidade cognitiva superior ou inferior do sujeito, definindo o tipo de intervenção a ser realizada fora da escola ou da sala de aula comum e, no geral, dissociadas do projeto escolar. A concepção das altas habilidades/superdotação preservava, desta forma, o mito de que estas pessoas possuíam valores "superiores" e saberes inquestionáveis.
No campo educacional, esse mito contribuiu para fortalecer a concepção equivocada de que as altas habilidades/superdotação poderiam ser manifestadas em diferentes áreas do conhecimento, mesmo sem oportunidades escolares adequadas; o mito era explicado por um desenvolvimento individualizado e de ordem predominantemente biológica. O imaginário social reforçava a proposição de que alunos com tais habilidades e necessidades não precisavam de recursos e serviços específicos para o desenvolvimento de suas potencialidades.
A concepção atual sobre os processos de identificação de alunos com altas habilidades/superdotação rompe com esse paradigma tradicional, que enfatizava somente a hereditariedade da inteligência e considerava o desenvolvimento de habilidades e comportamentos a partir de uma visão estanque e linear. Ela investe em estratégias que envolvem a observação, o contexto e as experiências desses alunos na escola e fora dela para o reconhecimento de potencialidades.
Na perspectiva multidimensional, as discussões sobre inteligência e as altas habilidades/superdotação passaram a incorporar pesquisas e análises sobre uma aprendizagem contextualizada e dependente de oportunidades e atividades para o desenvolvimento de habilidades. Sendo as habilidades acima da média manifestadas em diferentes áreas do conhecimento, a concepção de altas habilidades/superdotação coaduna-se a noção de rendimento e de excelência vislumbrada processualmente; de tal modo um ambiente enriquecedor, estimulante, é essencial para a identificação e para a proposição de ações para sujeitos que possuem tal necessidade específica de aprendizagem.
Por identificação entende-se o conjunto de instrumentos pedagógicos que podem ser utilizados para o reconhecimento de diferentes habilidades dos alunos em diversas áreas do conhecimento, considerando as especificidades das altas habilidades/superdotação. Essa prática de identificação traz o contexto da escola como foco de análise e a observação do professor possibilitando: conhecer diferentes estratégias que alguns alunos usam na resolução de problemas; revelar seus interesses e motivações; e avaliar conhecimentos e estilos de aprendizagem, subsidiando o trabalho educacional.
Nesse sentido, o objetivo da identificação não é "rotular" os alunos com altas habilidades/superdotação, mas verificar elementos individuais de aprendizagem para a elaboração de atividades e provisão de recursos específicos para estes. Não se busca um rendimento ou uma produção padrão que homogeneízam os alunos, mas consideram-se as diferenciações quanto aos interesses e habilidades e níveis de comprometimento com a tarefa, ou seja, as habilidades apresentadas são demonstradas em determinada ou em determinadas área(s) e ocasionalmente vislumbradas em períodos e situações distintas.
Na conjuntura educacional presente, as discussões sobre as altas habilidades/superdotação incorporam pesquisas e análises sobre uma aprendizagem contextualizada e vinculada a oportunidades e atividades de estímulo. Assim, as altas habilidades/superdotação não constituem apenas um atributo do indivíduo, mas são resultantes da interação do indivíduo com seu ambiente (ALENCAR & FLEITH, 2001).
Na medida em que habilidades geram necessidades que são desencadeadas por um contexto de estímulo e de aprendizado, a intervenção pedagógica específica para o atendimento aos alunos com altas habilidades/superdotação deve oportunizar a manifestação da criatividade e originalidade do aluno; técnicas que cooperam com a elaboração de trabalhos na(s) área(s) de interesse; e atividades usadas para transformar os ambientes tornando-os mais adequados ao aprendizado.
Estas intervenções são prerrogativas de uma educação de qualidade a todos os alunos, na qual a ênfase das oportunidades escolares colabora para o processo de construção do conhecimento e para a valorização das diversas formas do pensar. Tais práticas pedagógicas devem considerar e estimular o processo de desenvolvimento das estruturas cognitivas e possibilitar recursos compatíveis com a finalidade educacional de ampliar as condições de aprendizagem aos alunos com altas habilidades/superdotação.
A partir dos pressupostos teóricos de Piaget (1956), o conhecimento é fruto de um processo de interação do indivíduo com o meio e a inteligência é a resposta orgânica do indivíduo às solicitações e desafios desse meio. Os conceitos piagetianos contribuem para o entendimento de que quanto mais provocadoras e desequilibradoras forem às estratégias de ensino propostas em sala de aula, tanto maior serão as oportunidades e as possibilidades de construção do conhecimento pelos alunos.
A proposta educacional, derivada desses pressupostos favorece os alunos com altas habilidades/superdotação na superação de possíveis dificuldades na construção do conhecimento de forma individual e coletiva, no reconhecimento de características de aprendizagem distintas e individuais, reconhecendo a importância da interação e da participação de todos os alunos nos espaços comuns de aprendizagem. A aprendizagem colaborativa contribui para a autonomia cognitiva dos alunos com altas habilidades/superdotação, desafiando-os a não somente compartilhar conhecimentos na sala de aula, mas beneficiar-se dos processos de aprendizagem coletivos.
Fonte: http://arivieiracet.blogspot.com/2011/05/texto-alunos-com-altas.html
O papel da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no processo de diminuição do analfabetismo funcional e no aumento da produtividade brasileira
Por Henrique Montserrat Fernandez
Diante de campanhas lançadas por entidades internacionais, como a 5ª Conferência Internacional sobre Educação de Adultos (Confintea), de 1997, entre outras, os países ficaram conscientes da necessidade da erradicação do analfabetismo no mundo para que o tão almejado aumento de produtividade e a sonhada competitividade internacional em um mundo cada vez mais globalizado realmente ocorra.
Na Confintea, a Declaração de Hamburgo sobre Educação de Adultos, preconiza essencialmente:
“(…) A efetiva participação de homens e mulheres em cada esfera da vida é requisito fundamental para a humanidade sobreviver e enfrentar os desafios do futuro.
2. A educação de adultos, dentro desse contexto, torna-se mais que um direito: é a chave para o século XXI; é tanto conseqüência do exercício da cidadania como condição para uma plena participação na sociedade. Além do mais, é um poderoso argumento em favor do desenvolvimento ecológico sustentável, da democracia, da justiça, da igualdade entre os sexos, do desenvolvimento socioeconômico e científico, além de ser um requisito fundamental para a construção de um mundo onde a violência cede lugar ao diálogo e à cultura de paz baseada na justiça (…) (1999, p. 19).”
Os esforços brasileiros atuais, em especial o Programa Brasil Alfabetizado, de 2003, são os maiores que o Brasil já fez para erradicação do analfabetismo. Esses esforços, entretanto, seriam apenas letra morta, caso não houvesse a participação da sociedade civil.
É graças a entidades como a Associação Alfabetização Solidária (AlfaSol) que esse e outros programas de interesse para nossa sociedade conseguem ser implementados. Fundada há 14 anos, a AlfaSol tem se destacado como um modelo nacional em Educação de Jovens e Adultos.
Essa modalidade de ensino pode e deve ser estendida, do ponto de vista metodológico, a outras modalidades existentes.
No que diz respeito principalmente ao aproveitamento da “história de vida” de seus participantes e, em seu uso no processo de aprendizagem, a EJA demonstra sucessos semelhantes aos obtidos nos processos de etno-aprendizagem.
É notório que o conhecimento humano é uma escada construída sobre os degraus colocados por nossos antepassados étnicos e/ou culturais. O homem não precisa reinventar a roda a cada geração. Mas pode melhorá-la.
Um dos maiores problemas enfrentados pelos estudantes (e eu me coloco nesse meio quando recordo as dificuldades iniciais com números e outros conceitos um tanto quanto abstratos) é que a capacidade de exemplificação de cada professor era o que nos fazia aprender ou não os conceitos dados. Foi a partir de meus estudos sobre a história grega que conceitos como o dos teoremas clássicos ficaram mais claros. O fato de saber como viviam e como pensavam me proporcionou um maior entendimento sobre seus cálculos, que eram uma incógnita à época em que os aprendi, pois não lhes conhecia a utilidade.
Da mesma forma, um professor que não domina os conceitos culturais de seus alunos não consegue, na maior parte das vezes, fazer-se entender a contento. Não porque os alunos sejam ignorantes, longe disso, mas simplesmente porque sua realidade cultural é tão diferente da do professor, que os dois não conseguem falar a mesma língua, mesmo ela sendo o português. São os assim chamados ruídos da comunicação.
Nas palavras de Ubiratan D’Ambrosio, professor dos programas de Pós-Graduação em História da Ciência e em Educação Matemática da PUC de São Paulo:
“O Brasil destacou-se, juntamente com os Estados Unidos, pelo potencial da etnomatemática na educação. Em sintonia com o pensamento de Paulo Freire, ela demonstrou que, além da importante pesquisa sobre o saber e o fazer matemático de várias culturas, abordado nas dimensões etnográfica, histórica e epistemológica da etnomatemática, dá-se igual importância à dimensão pedagógica, uma vez que ela propõe uma alternativa à educação tradicional (2005, pág. 9).”
A ideia, portanto, não é de desprezar o saber acadêmico tradicional, mas sim de complementá-lo quando necessário com uma abordagem etnológica, a fim de aproveitar os conhecimentos dos alunos como feedback para a reestruturação do conceito pedagógico utilizado.
Dessa forma a EJA, além de ser um modelo pedagógico indispensável para vencer o desafio do analfabetismo brasileiro de uma vez por todas, também pode ser considerada uma metodologia base para a formação de alunos e professores para os níveis elementar e médio. Dessa forma, esses docentes poderão entender melhor e vencer as barreiras de aprendizagem de seus alunos. Afinal, o que se deseja é que as pessoas aprendam a aprender. Só assim o conhecimento poderá ser multiplicado e plenamente utilizado.
Isso vem diretamente ao encontro do interesse nacional em aumentar a produtividade e a competitividade do país ao nível internacional.
Sobre Henrique Montserrat Fernandez
Henrique Montserrat Fernandez é administrador de empresas com pós-graduação em Análise de Sistemas e MBA em Tecnologia da Informação / E-management pela FGV. Com mais de 30 anos de atuação profissional, trabalhou em empresas de médio e grande portes, tais como Grupo Bonfiglioli, Copersucar, Zanthus e Boston Scientific, entre outras. Foi professor universitário, além de ministrar cursos no Senac e Sebrae. Possui ampla vivência em treinamento empresarial. Atual gerente de TI da AlfaSol, é autor dos livros Falir Jamais! Gestão Correta x Crise e Evitando a Falência, além de escritor de vários artigos sobre gestão empresarial e educação.
Fonte:http://www.cereja.org.br/historias/?p=129
Diante de campanhas lançadas por entidades internacionais, como a 5ª Conferência Internacional sobre Educação de Adultos (Confintea), de 1997, entre outras, os países ficaram conscientes da necessidade da erradicação do analfabetismo no mundo para que o tão almejado aumento de produtividade e a sonhada competitividade internacional em um mundo cada vez mais globalizado realmente ocorra.
Na Confintea, a Declaração de Hamburgo sobre Educação de Adultos, preconiza essencialmente:
“(…) A efetiva participação de homens e mulheres em cada esfera da vida é requisito fundamental para a humanidade sobreviver e enfrentar os desafios do futuro.
2. A educação de adultos, dentro desse contexto, torna-se mais que um direito: é a chave para o século XXI; é tanto conseqüência do exercício da cidadania como condição para uma plena participação na sociedade. Além do mais, é um poderoso argumento em favor do desenvolvimento ecológico sustentável, da democracia, da justiça, da igualdade entre os sexos, do desenvolvimento socioeconômico e científico, além de ser um requisito fundamental para a construção de um mundo onde a violência cede lugar ao diálogo e à cultura de paz baseada na justiça (…) (1999, p. 19).”
Os esforços brasileiros atuais, em especial o Programa Brasil Alfabetizado, de 2003, são os maiores que o Brasil já fez para erradicação do analfabetismo. Esses esforços, entretanto, seriam apenas letra morta, caso não houvesse a participação da sociedade civil.
É graças a entidades como a Associação Alfabetização Solidária (AlfaSol) que esse e outros programas de interesse para nossa sociedade conseguem ser implementados. Fundada há 14 anos, a AlfaSol tem se destacado como um modelo nacional em Educação de Jovens e Adultos.
Essa modalidade de ensino pode e deve ser estendida, do ponto de vista metodológico, a outras modalidades existentes.
No que diz respeito principalmente ao aproveitamento da “história de vida” de seus participantes e, em seu uso no processo de aprendizagem, a EJA demonstra sucessos semelhantes aos obtidos nos processos de etno-aprendizagem.
É notório que o conhecimento humano é uma escada construída sobre os degraus colocados por nossos antepassados étnicos e/ou culturais. O homem não precisa reinventar a roda a cada geração. Mas pode melhorá-la.
Um dos maiores problemas enfrentados pelos estudantes (e eu me coloco nesse meio quando recordo as dificuldades iniciais com números e outros conceitos um tanto quanto abstratos) é que a capacidade de exemplificação de cada professor era o que nos fazia aprender ou não os conceitos dados. Foi a partir de meus estudos sobre a história grega que conceitos como o dos teoremas clássicos ficaram mais claros. O fato de saber como viviam e como pensavam me proporcionou um maior entendimento sobre seus cálculos, que eram uma incógnita à época em que os aprendi, pois não lhes conhecia a utilidade.
Da mesma forma, um professor que não domina os conceitos culturais de seus alunos não consegue, na maior parte das vezes, fazer-se entender a contento. Não porque os alunos sejam ignorantes, longe disso, mas simplesmente porque sua realidade cultural é tão diferente da do professor, que os dois não conseguem falar a mesma língua, mesmo ela sendo o português. São os assim chamados ruídos da comunicação.
Nas palavras de Ubiratan D’Ambrosio, professor dos programas de Pós-Graduação em História da Ciência e em Educação Matemática da PUC de São Paulo:
“O Brasil destacou-se, juntamente com os Estados Unidos, pelo potencial da etnomatemática na educação. Em sintonia com o pensamento de Paulo Freire, ela demonstrou que, além da importante pesquisa sobre o saber e o fazer matemático de várias culturas, abordado nas dimensões etnográfica, histórica e epistemológica da etnomatemática, dá-se igual importância à dimensão pedagógica, uma vez que ela propõe uma alternativa à educação tradicional (2005, pág. 9).”
A ideia, portanto, não é de desprezar o saber acadêmico tradicional, mas sim de complementá-lo quando necessário com uma abordagem etnológica, a fim de aproveitar os conhecimentos dos alunos como feedback para a reestruturação do conceito pedagógico utilizado.
Dessa forma a EJA, além de ser um modelo pedagógico indispensável para vencer o desafio do analfabetismo brasileiro de uma vez por todas, também pode ser considerada uma metodologia base para a formação de alunos e professores para os níveis elementar e médio. Dessa forma, esses docentes poderão entender melhor e vencer as barreiras de aprendizagem de seus alunos. Afinal, o que se deseja é que as pessoas aprendam a aprender. Só assim o conhecimento poderá ser multiplicado e plenamente utilizado.
Isso vem diretamente ao encontro do interesse nacional em aumentar a produtividade e a competitividade do país ao nível internacional.
Sobre Henrique Montserrat Fernandez
Henrique Montserrat Fernandez é administrador de empresas com pós-graduação em Análise de Sistemas e MBA em Tecnologia da Informação / E-management pela FGV. Com mais de 30 anos de atuação profissional, trabalhou em empresas de médio e grande portes, tais como Grupo Bonfiglioli, Copersucar, Zanthus e Boston Scientific, entre outras. Foi professor universitário, além de ministrar cursos no Senac e Sebrae. Possui ampla vivência em treinamento empresarial. Atual gerente de TI da AlfaSol, é autor dos livros Falir Jamais! Gestão Correta x Crise e Evitando a Falência, além de escritor de vários artigos sobre gestão empresarial e educação.
Fonte:http://www.cereja.org.br/historias/?p=129
Emoção
Por Simoninha.Lee
Fonte: Banco de Imagens
Interior do Sergipe, Carira.
Calor de 38 graus.
Parto para a zona rural. Mais um dia de trabalho. Uma hora de chão e muita ansiedade.
Ao chegar à sala, rostos cansados, queimados do sol. Sala cheia e muito calor humano. Muitas histórias de vida, muita aprendizagem. Aprendizagem construída pelos alunos, mas principalmente por mim. Cada história, uma lição de vida, uma aprendizagem que carrego comigo para sempre.
Plantação de milho a partir das 5 da manhã. Capinar a terra, afofar, arar a terra, regar, plantar, colher. Retorno para a casa, comer (quando tem), tomar banho e… Descansar? Não!
Estudar! Sim, estudar. A força e a garra destes alunos guerreiros não têm igual. Lição de vida.
Dentre tantas lições uma que ficará avivada eternamente em minha mente e no coração. Luciano era o nome dele. Educador, alfabetizador. Violão no braço, voz embargada, canção emocionada.
Depois do show a revelação:
- Se estou aqui hoje, alfabetizando, ensinando, aprendendo, doando é por esta mulher.
Ela: Andréa, coordenadora, ex-alfabetizadora.
E a surpresa continua:
- Esta mulher me alfabetizou, me ensinou e hoje quero retribuir um pouco este grande gesto de amor ao próximo. Alfabetizo, ensino com o mesmo amor que recebi.
Fim de aula. Rostos não mais cansados, mas muito emocionados, lágrimas rolaram. Alunos admirados, Coordenadora lisonjeada, e eu, maravilhada.
Sou grata pelo meu trabalho, sou grata pela oportunidade, sou grata pelo crescimento, sou grata pelos encontros, sou grata pelos grandes ensinamentos.
Não que tudo sejam rosas no trabalho. Muita coisa me entristece, muita coisa me estressa, muita coisa que revolta, principalmente quando muitas pessoas não entendem de fato o que é a doação pela educação, quando não entendem que lidamos com pessoas reais, quando não entendem que não é porque atendemos as minorias que o que oferecemos pode ser pouco, quando não entendem as dificuldades que enfrentamos na ponta por querermos sempre o melhor para o aluno. Isso e muitas outras coisas me entristecem. Mas, Lucianos e Andréas são o motivo para continuar acreditando. Continuar acreditando na educação, continuar acreditando que dar o meu melhor ainda vale a pena, continuar acreditando que outros algum dia também darão o seu melhor, continuar acreditando na mudança, na vida!
Sobre Simoninha.Lee
Sou pedagoga. Ja trabalhei na rede municipal de São Bernardo do Campo inicialmente como professora do Ensino Fundamental e depois como Coordenadora Pedagógica na EMEB. Janete Mally Bete Simões, com 40 turmas de 1º ao 4º ano do Ensino Fundamental e 10 turmas de EJA no período noturno. Hoje atuo como formadora nos projetos da ALfaSol dando formação a alfabetizadores e educadores das redes municipais em todo o país.
Fonte: http://www.cereja.org.br/historias/?p=172
Fonte: Banco de Imagens
Interior do Sergipe, Carira.
Calor de 38 graus.
Parto para a zona rural. Mais um dia de trabalho. Uma hora de chão e muita ansiedade.
Ao chegar à sala, rostos cansados, queimados do sol. Sala cheia e muito calor humano. Muitas histórias de vida, muita aprendizagem. Aprendizagem construída pelos alunos, mas principalmente por mim. Cada história, uma lição de vida, uma aprendizagem que carrego comigo para sempre.
Plantação de milho a partir das 5 da manhã. Capinar a terra, afofar, arar a terra, regar, plantar, colher. Retorno para a casa, comer (quando tem), tomar banho e… Descansar? Não!
Estudar! Sim, estudar. A força e a garra destes alunos guerreiros não têm igual. Lição de vida.
Dentre tantas lições uma que ficará avivada eternamente em minha mente e no coração. Luciano era o nome dele. Educador, alfabetizador. Violão no braço, voz embargada, canção emocionada.
Depois do show a revelação:
- Se estou aqui hoje, alfabetizando, ensinando, aprendendo, doando é por esta mulher.
Ela: Andréa, coordenadora, ex-alfabetizadora.
E a surpresa continua:
- Esta mulher me alfabetizou, me ensinou e hoje quero retribuir um pouco este grande gesto de amor ao próximo. Alfabetizo, ensino com o mesmo amor que recebi.
Fim de aula. Rostos não mais cansados, mas muito emocionados, lágrimas rolaram. Alunos admirados, Coordenadora lisonjeada, e eu, maravilhada.
Sou grata pelo meu trabalho, sou grata pela oportunidade, sou grata pelo crescimento, sou grata pelos encontros, sou grata pelos grandes ensinamentos.
Não que tudo sejam rosas no trabalho. Muita coisa me entristece, muita coisa me estressa, muita coisa que revolta, principalmente quando muitas pessoas não entendem de fato o que é a doação pela educação, quando não entendem que lidamos com pessoas reais, quando não entendem que não é porque atendemos as minorias que o que oferecemos pode ser pouco, quando não entendem as dificuldades que enfrentamos na ponta por querermos sempre o melhor para o aluno. Isso e muitas outras coisas me entristecem. Mas, Lucianos e Andréas são o motivo para continuar acreditando. Continuar acreditando na educação, continuar acreditando que dar o meu melhor ainda vale a pena, continuar acreditando que outros algum dia também darão o seu melhor, continuar acreditando na mudança, na vida!
Sobre Simoninha.Lee
Sou pedagoga. Ja trabalhei na rede municipal de São Bernardo do Campo inicialmente como professora do Ensino Fundamental e depois como Coordenadora Pedagógica na EMEB. Janete Mally Bete Simões, com 40 turmas de 1º ao 4º ano do Ensino Fundamental e 10 turmas de EJA no período noturno. Hoje atuo como formadora nos projetos da ALfaSol dando formação a alfabetizadores e educadores das redes municipais em todo o país.
Fonte: http://www.cereja.org.br/historias/?p=172
E então virei educadora…
Por Edneia
Fonte: Banco de Imagens
Meu universo girava em torno da dança, da política e da literatura. Horizontalmente, sem prevalência de nada. Em um mesmo dia ensaiava uma coreografia, participava de um grupo de estudo do “Capital” e de um sarau no movimento popular de arte.
Em família de funcionários públicos, prestar concurso é parte da tessitura do futuro, e assim sendo, prestei e passei no concurso para educadora de adultos aos 18 anos. Emprego perfeito para uma legítima “bicho grilo”: dias livres, 3 horas diárias de trabalho noturno, formações um sábado por mês… muito tempo livre pra arte, política e literatura.
A transformação em educadora e os ritos decorrentes não foram um evento importante naquele momento: cresci cercada de professoras, e o cotidiano de planejamento, avaliação etc. não eram novidade. Novidade eram eles, os alunos, eles sim transformaram minha vida e continuam dando o tom de meu percurso profissional.
Minha 1ª turma funcionava no prédio de uma escola semi-pronta em um conjunto habitacional chamado Pró Morar Rio Claro, construído sobre um lixão. Meus alunos eram moradores e vítimas deste conjunto. Um ano após o início deste trabalho fui transferida para uma sala de aula improvisada no refeitório de uma creche também na zona leste de São Paulo, no Jardim Santo André. Durante 3 anos trabalhei com esta turma e até hoje, 24 anos após o término desta experiência, se fechar os olhos consigo visualizar cada aluno, cada cadeira inadequada, cada mão que tremia, cada folha de caderno que ia sendo povoada, mas sempre me vejo com a idade atual tentando resolver as questões colocadas pelos meus alunos, essas sempre serão as questões mais importantes e decisivas. Esse também é meu jeito de sentir saudade de um momento que somente agora consigo dimensionar.
Neste período conheci Paulo Freire, meu “formador” por 3 anos no sentido mais profundo contido nesta palavra. Foi com ele que teci minha ação educativa e por ele abandonei o serviço público ao perceber que não poderia mais desenvolver o trabalho intensamente construído ao longo de 4 anos.
Afastei-me da sala de aula acreditando que a experiência vivida fora um presente tão grande, tão bem aproveitado e completo, que se esgotava ali mesmo.
Estudei Sociologia e Política, atuei na área de pesquisa socioeconômica, gestão e formação de educadores da infância, juventude e arte educação (dirigi até Circo-escola)… Tanta coisa… até reencontrar a EJA, e de repente tudo fazer sentido. Acho que a essência que move minha história é a mesma: a política, a literatura e a dança, porque apesar da bailarina ter ficado lá na juventude, a sustentação que joga pra frente meu “jéte elancés” continua sendo a confiança na cidadania ativa como força propulsora do meu ideal de igualdade social.
Na verdade acho que não voltei pra EJA, apenas continuei seguindo em direção a esse lugar parecido com felicidade, no meu caso uma sala de aula como aquela em que vivenciei o privilégio de me descobrir parte da grande engrenagem que tenta mudar o mundo.
Sobre Edneia
Cientista social com especialização em educação. Pesquisadora da área de EJA com autação nas áreas de formação de docentes e gestores educacionais e elaboração de projetos socioeducativos. Assessora técnica da AlfaSol.
Fonte: http://www.cereja.org.br/historias/?author=9
Fonte: Banco de Imagens
Meu universo girava em torno da dança, da política e da literatura. Horizontalmente, sem prevalência de nada. Em um mesmo dia ensaiava uma coreografia, participava de um grupo de estudo do “Capital” e de um sarau no movimento popular de arte.
Em família de funcionários públicos, prestar concurso é parte da tessitura do futuro, e assim sendo, prestei e passei no concurso para educadora de adultos aos 18 anos. Emprego perfeito para uma legítima “bicho grilo”: dias livres, 3 horas diárias de trabalho noturno, formações um sábado por mês… muito tempo livre pra arte, política e literatura.
A transformação em educadora e os ritos decorrentes não foram um evento importante naquele momento: cresci cercada de professoras, e o cotidiano de planejamento, avaliação etc. não eram novidade. Novidade eram eles, os alunos, eles sim transformaram minha vida e continuam dando o tom de meu percurso profissional.
Minha 1ª turma funcionava no prédio de uma escola semi-pronta em um conjunto habitacional chamado Pró Morar Rio Claro, construído sobre um lixão. Meus alunos eram moradores e vítimas deste conjunto. Um ano após o início deste trabalho fui transferida para uma sala de aula improvisada no refeitório de uma creche também na zona leste de São Paulo, no Jardim Santo André. Durante 3 anos trabalhei com esta turma e até hoje, 24 anos após o término desta experiência, se fechar os olhos consigo visualizar cada aluno, cada cadeira inadequada, cada mão que tremia, cada folha de caderno que ia sendo povoada, mas sempre me vejo com a idade atual tentando resolver as questões colocadas pelos meus alunos, essas sempre serão as questões mais importantes e decisivas. Esse também é meu jeito de sentir saudade de um momento que somente agora consigo dimensionar.
Neste período conheci Paulo Freire, meu “formador” por 3 anos no sentido mais profundo contido nesta palavra. Foi com ele que teci minha ação educativa e por ele abandonei o serviço público ao perceber que não poderia mais desenvolver o trabalho intensamente construído ao longo de 4 anos.
Afastei-me da sala de aula acreditando que a experiência vivida fora um presente tão grande, tão bem aproveitado e completo, que se esgotava ali mesmo.
Estudei Sociologia e Política, atuei na área de pesquisa socioeconômica, gestão e formação de educadores da infância, juventude e arte educação (dirigi até Circo-escola)… Tanta coisa… até reencontrar a EJA, e de repente tudo fazer sentido. Acho que a essência que move minha história é a mesma: a política, a literatura e a dança, porque apesar da bailarina ter ficado lá na juventude, a sustentação que joga pra frente meu “jéte elancés” continua sendo a confiança na cidadania ativa como força propulsora do meu ideal de igualdade social.
Na verdade acho que não voltei pra EJA, apenas continuei seguindo em direção a esse lugar parecido com felicidade, no meu caso uma sala de aula como aquela em que vivenciei o privilégio de me descobrir parte da grande engrenagem que tenta mudar o mundo.
Sobre Edneia
Cientista social com especialização em educação. Pesquisadora da área de EJA com autação nas áreas de formação de docentes e gestores educacionais e elaboração de projetos socioeducativos. Assessora técnica da AlfaSol.
Fonte: http://www.cereja.org.br/historias/?author=9
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